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Histórias de gente: A Guerra de Clara

Em dezembro do ano passado, a Ediouro entrou em contato com as Luluzinhas e ofereceu alguns livros para que nós lêssemos e resenhássemos. Quando vi a lista de livros, imediatamente me interessei por “A Guerra de Clara“. Apesar de não ter nenhum laço familiar com o Holocausto, sempre me encantei pelas histórias de pessoas que vivem situações de guerra. Sofro junto com elas e fico mal por dias quando as coisas não acabam como eu gostaria.

Eu sabia que meu livro havia chegado em casa, mas estava passando férias na casa do namorado, em São Paulo. Tolinha, nem pensei em pedir que enviassem o livro para lá. E assim fui vendo as meninas comemorarem o recebimento dos livros e chupando os dedos, por não ter um livrinho novo sequer para ler (pausa para cara de cachorro caído da mudança).

Só “recebi” meu livro no começo de janeiro. Dos três que recebi, escolhi ler a Guerra de Clara primeiro. Bem que fiz. A história de Clara Kramer deu um tom de drama aos meus últimos dias de férias, mas não um drama de desespero. Pelo contrário, a esperança está sempre presente na história dessa menina judia, contada pela sobrevivente de 80 anos. Talvez porque, ao contrário do Diário de Anne Frank e do Diário de Zatla, A Guerra de Clara se baseia em um diário, mas foi escrito após o fim da guerra, quando as feridas já estavam um pouco cicatrizadas (me pergunto até que ponto feridas de guerra cicatrizam).

(Uma pequena curiosidade: no início, confundi Clara Kramer com Miep Gies, a holandesa que abrigou a família de Anne Frank no subsolo de sua casa e guardou seu diário. Anne Frank, ao contrário de Clara, não sobreviveu ao holocausto, então ler seu diário é bastante doloroso. A história de Miep Gies está contada em Escritores da Liberdade, um livro que virou filme, baseado na história real de uma professora de uma escola de periferia, que encontrou na escrita a chave para integrar seus alunos a uma comunidade que não lhes dava nenhum respaldo.)

Voltando a Clara Kramer, em vários momentos me peguei pensando em como eu agiria naquela situação. Esconder-se dos inimigos, em uma guerra, equivale a abrir mão do orgulho. Para a família de Clara, significou abrigar-se sob o solo de um conhecido anti-semita, beberrão, amigo de oficiais nazistas. Além disso, dividir um abrigo com outras famílias, com suas particularidades (e chatices).

Embora seja bem pesado, A Guerra de Clara é um livro gostoso de ler. Quando faltavam pouco mais de 60 páginas para o final, me enfiei numa madrugada de leitura, como fazia na minha adolescência. Fui dormir as cinco da manhã, mas feliz por saber que a menina havia sobrevivido e a guerra, terminado.

Um último comentário: é uma pena que a tradução e a revisão tenham deixado alguns lapsos de ortografia e continuidade. Enquanto não estava totalmente envolvida pela história, esses lapsos foram bastante irritantes. Uma história tão rica merecia um pouco mais de atenção nesse aspecto.