Sobre feminismo, machismo e outros ismos…
Posted in Feminismo on 04/17/2009 11:45 pm by carlaHá alguns dias eu estava estacionando o meu carro em frente a uma loja de produtos agropecuários. Eu gosto dessa loja porque tem viveiros enormes com calopsitas na frente, o que geralmente me rende algumas risadas. Nesse dia não foi diferente: um cachorro estava passando pela rua e, curioso, resolveu colocar o focinho no viveiro. Uma das calopsitas não teve dúvida: deu-lhe uma bicada no focinho e o pobre vira-lata saiu correndo pela rua.
Mal sabia eu que, como a calopsita e o cachorrinho, também estava sendo observada. Distraída pela cena, acabei encostando a roda do carro no meio-fio. Não que isso me incomode: carro é para ser usado, não para me usar. Era o que eu pensava…
Desci do carro e um senhor (que estava na porta da tal loja e eu nem tinha visto) olha para mim, muito sério, e diz “ih, seu marido vai ficar bravo com isso”. Me subiu o sangue: como assim “meu marido”? Para começo de conversa, a criatura nem me conhece para saber que nem casada sou. O carro é meu. A roda é minha. O que leva aquela criatura a pensar que, se eu estrago o MEU carro, o problema não é meu, é do meu MARIDO?
Eu tive que perguntar “Mas o carro é meu, porque outra pessoa ficaria brava com o que eu faço com ele?”. Ele, aparentemente constrangido, disse “ah, parabéns por ter o seu carro”. Claro, né? Porque trabalhar e ter o próprio carro é MUITA coisa para uma mulher, essas pobres coitadas que não tem condições de trabalhar-produzir-contribuir com a sociedade. Quando um ser nascido para ser boneca, troféu, enfeite e deleite masculino consegue ser algo além disso, merece congratulações, certo? Errado.
Há quem pense que ser feminista é ser “contrária” aos homens. Que ser feminista é só usar tênis-botina-camiseta-boné. Que ser feminina é abrir mão da maquiagem, da depilação, do esmalte. Nada mais distante da realidade. Ser feminista é usar maquiagem, botina, esmalte, jeans, camiseta, vestido, saia, salto, tênis ou fazer depilação SE e QUANDO quiser. Fazer isso para o próprio prazer, não para o outro. Ser feminista é ficar pasma quando alguém diz que, se a coelhinha da Playboy é assediada, bem-feito-pra-ela-quem-mandou-ser-biscate. E chiar. E, quando alegam que a máquina de lavar é a maior conquista da mulher moderna, lembrar da carteira de trabalho e do título de eleitor, como bem fez a Marjorie. É não aceitar que mulheres e homens ainda não estão no mesmo patamar no mercado de trabalho. É não aceitar quando uma reclamação feminina, ainda que genuína, seja “fruto de TPM”. É achar um absurdo os comentários sobre a roupa da senadora xis ou a plástica da ministra ipslon, no lugar dos comentários sobre o que elas realmente fazem. É enfurecer-se quando alguém te dá parabéns, porque você é mulher e escreve bem ou porque você é mulher e inteligente ou porque você, veja que coisa, é uma mulher que escreve sobre música!
É assim que eu sou feminista. Quando eu reconheço em mim (e em todas as outras mulheres do mundo) direitos e deveres. As responsabilidades pelas próprias escolhas (tem coisa mais irritante que mulher reclamando de marido a três por quatro? tem coisa mais irritante que gente que só reclama?). A capacidade e a possibilidade de escolher ser o que bem quiser: professora, coelhinha, médica, dona de casa, astronauta, cantora, mãe em tempo integral ou engenheira. E, na medida em que a plenitude é possível, acreditar que uma mulher, para ser plena, se basta. Afinal, já passou muito da época do complexo de castração, minha gente.


