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Violência doméstica: até quando vai ser natural?

Hoje, 25 de novembro, é Dia do Combate à Violência contra a Mulher. A gente tem que combater todos os dias, mas o dia 25 de novembro marca a luta e nos traz visibilidade. Eu escrevi esse texto há muito tempo, mas ele continua atual. Mas, antes de continuar a leitura, veja o filme:

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Cena 1 (vizinhas conversando):

- Aquela ali apanha do marido.
- Mas também bate. Você viu que eles estavam os dois roxos ontem?
- Pois é a vida: tem quem goste assim
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Cena 2 (pai falando com o professor):

- Quando eu chegar em casa, a varinha vai comer.
- Mas adianta?
- Sempre adiantou. Semana passada ele apanhou, semana retrasada também. Só apanhando ele aprende.

Cena 3 (aluno em sala de aula):

- Mas sabe o que é, professora? Tem mulher que gosta de apanhar. A minha vizinha, por exemplo, se não apanha, não deixa o marido dormir. Eu que não vou me meter.

Das três cenas aí de cima, pelo menos uma eu presenciei nos últimos seis meses. As outras duas é bem possível que você tenha presenciado. E me assusta perceber o quanto a gente considera “normal” a violência que acontece dentro de casa.

Violência doméstica não é só dar tiro na mulher porque ela demorou no mercado. Aliás, violência não precisa ser física, pode ser psicológica. O filme espanhol Te doy mis ojos (trailler), de 2003, é uma ilustração bastante fiel do quanto a violência doméstica extrapola o limite da agressão física: uma pessoa cotidianamente agredida não consegue estabelecer vínculos afetivos. É uma pessoa que está condenada a não confiar: não confiar nos pais, não confiar no parceiro, não confiar no chefe, não confiar nos amigos. Se eu aprendo que a cada falha eu vou apanhar, que a cada mudança climática (ou derrota do time) eu vou tomar uns tapas, como eu vou estabelecer uma relação afetiva e não violenta com qualquer pessoa?

Para compreender o fenômeno é importante mudar o foco. Sair do agredido e partir para o agressor. O que leva uma pessoa a se tornar um agressor? Agressores são formados com modelos de agressão. Crianças que crescem presenciando os pais se agredindo provavelmente acharão “normal” que um exerça esse poder violento sobre o outro: porque é mais forte, ganha mais ou é o responsável pela casa. Enquanto filhas de mulheres agredidas tenderão a naturalizar o “apanhar”, filhos de pais agressores tenderão para o “bater”. A aprendizagem se dá pelo modelo.

Já passou da hora de repensarmos (e tentarmos eliminar) as reações violentas que ocorrem dentro das nossas casas. Repensar nossas respostas às adversidades, nossa visão de mundo: será natural que “quem pode mais, bate e quem pode menos, apanha”? São esses os lugares que queremos ocupar em nossa relação com o mundo? Quais as conseqüências disso para a sociedade?

Estabelecer um novo repertório de comportamentos, não violentos e baseados no afeto, na racionalidade e no respeito ao outro é trabalho para gerações. Mas isso não é justificativa para não darmos o primeiro passo.

Quer saber mais?

Sobre feminismo, machismo e outros ismos…

Há alguns dias eu estava estacionando o meu carro em frente a uma loja de produtos agropecuários. Eu gosto dessa loja porque tem viveiros enormes com calopsitas na frente, o que geralmente me rende algumas risadas. Nesse dia não foi diferente: um cachorro estava passando pela rua e, curioso, resolveu colocar o focinho no viveiro. Uma das calopsitas não teve dúvida: deu-lhe uma bicada no focinho e o pobre vira-lata saiu correndo pela rua.

Mal sabia eu que, como a calopsita e o cachorrinho, também estava sendo observada. Distraída pela cena, acabei encostando a roda do carro no meio-fio. Não que isso me incomode: carro é para ser usado, não para me usar. Era o que eu pensava…

Desci do carro e um senhor (que estava na porta da tal loja e eu nem tinha visto) olha para mim, muito sério, e diz “ih, seu marido vai ficar bravo com isso”. Me subiu o sangue: como assim “meu marido”? Para começo de conversa, a criatura nem me conhece para saber que nem casada sou. O carro é meu. A roda é minha. O que leva aquela criatura a pensar que, se eu estrago o MEU carro, o problema não é meu, é do meu MARIDO?

Eu tive que perguntar “Mas o carro é meu, porque outra pessoa ficaria brava com o que eu faço com ele?”. Ele, aparentemente constrangido, disse “ah, parabéns por ter o seu carro”. Claro, né? Porque trabalhar e ter o próprio carro é MUITA coisa para uma mulher, essas pobres coitadas que não tem condições de trabalhar-produzir-contribuir com a sociedade. Quando um ser nascido para ser boneca, troféu, enfeite e deleite masculino consegue ser algo além disso, merece congratulações, certo? Errado.

Há quem pense que ser feminista é ser “contrária” aos homens. Que ser feminista é só usar tênis-botina-camiseta-boné. Que ser feminina é abrir mão da maquiagem, da depilação, do esmalte. Nada mais distante da realidade. Ser feminista é usar maquiagem, botina, esmalte, jeans, camiseta, vestido, saia, salto, tênis ou fazer depilação SE e QUANDO quiser. Fazer isso para o próprio prazer, não para o outro. Ser feminista é ficar pasma quando alguém diz que, se a coelhinha da Playboy é assediada, bem-feito-pra-ela-quem-mandou-ser-biscate. E chiar. E, quando alegam que a máquina de lavar é a maior conquista da mulher moderna, lembrar da carteira de trabalho e do título de eleitor, como bem fez a  Marjorie. É não aceitar que mulheres e homens ainda não estão no mesmo patamar no mercado de trabalho. É não aceitar quando uma reclamação feminina, ainda que genuína, seja “fruto de TPM”. É achar um absurdo os comentários sobre a roupa da senadora xis ou a plástica da ministra ipslon, no lugar dos comentários sobre o que elas realmente fazem. É enfurecer-se quando alguém te dá parabéns, porque você é mulher e escreve bem ou porque você é mulher e inteligente ou porque você, veja que coisa, é uma mulher que escreve sobre música!

É assim que eu sou feminista. Quando eu reconheço em mim (e em todas as outras mulheres do mundo) direitos e deveres. As responsabilidades pelas próprias escolhas (tem coisa mais irritante que mulher reclamando de marido a três por quatro? tem coisa mais irritante que gente que só reclama?). A capacidade e a possibilidade de escolher ser o que bem quiser: professora, coelhinha, médica, dona de casa, astronauta, cantora, mãe em tempo integral ou engenheira. E, na medida em que a plenitude é possível, acreditar que uma mulher, para ser plena, se basta. Afinal, já passou muito da época do complexo de castração, minha gente.