Melhor que os Beatles

Foi uma entrevista da Legião Urbana ao Renato Alexandre, no Zap, por ocasião do lançamento da Tempestade. Lá pelas tantas, o entrevistador pergunta ao Renato se ele tinha vontade de fazer o seu Pet Sounds. Ele respondeu assim:

Todo próximo disco da Legião vai ser o nosso Pet Sounds, mas acaba não sendo. Acho que cada trabalho de todo o artista é para ser o Pet Sounds, mas não é, entende?

Era 26 de setembro de 1996. Eu tinha 17 anos, estudava no colégio de manhã e no cursinho pré-vestibular de noite. Faltavam dois meses pra primeira fase da Fuvest e era só nisso que eu pensava. Mas tinha o disco novo da Legião saindo e, bem, era o disco novo da Legião! Depois de um bom tempo, o disco novo da minha banda favorita ia sair e tudo, tudo, tudo que se referisse a isso era alvo da minha atenção. E aí o Renato me fala desse tal Pet Sounds, de que eu nunca tinha ouvido falar. Pronto, eu pre-ci-sa-va ouvir o Pet Sounds. Virou prioridade máxima ter o CD nas mãos.

E agora eu tenho que ser honesta, honestíssima. Às primeiras audições, achei P-O-D-R-E. Um disquinho de criança, com uns cabritinhos na capa, umas musiquinhas românticas qusase melosas. Como assim, que repórter retardado achava que a Legião tinha que fazer “o seu” Pet Sounds? Tinha tomado groselha demais no almoço? E, pior, por que diabos o Renato disse que todo artista entrava em estúdio para fazer “o seu” Pet Sounds?

Em 1997, depois da morte do Renato, já na faculdade, voltei a ouvir Pet Sounds. Porque eu andava com uma turma roqueirinha e, nhé, precisava fazer bonito. E lá fui eu dar uma segunda chance pro disco dos cabritinhos na capa. Já mais inserida no meio do roquenrou (rá rá rá), achei o disco bom. Rico, interessante, mas ainda não me dizia muita coisa.

Foi por volta de 2004, 2005 que eu voltei a ouvir o Pet Sounds. E entender a importância do disco, que foi apontado como a maior importância para o Sargent Pepper’s (convenhamos, não é pouca coisa). E aí caiu-me a ficha. Pronto.

Apaixonei.

E assim, God Only Knows se tornou, para mim, a declaração de amor mais linda que já foi feita e Wouldn’t it be nice, mantra nas horas de encheção de paciência. O disco, inteiro, música para aqueles momentos em que eu acho que nada mais pode ser feito, porque mostra que sempre dá. Além disso, o Pet Sounds é um dos poucos discos não-do-Pink-Floyd que eu costumo de ouvir inteiro, numa sequência.

* Explicando o título: meu cunhado conta uma história muito bonitinha. Depois de ouvir o Álbum Branco [A Daniela Picoral, fotógrafa super bacana, me mandou um e-mail contando: não foi o Álbum Branco, mas sim o Rubber Soul, de 1965] dos Beatles, o Brian Wilson se enfurnou no estúdio porque ele tinha que criar uma coisa tão boa quanto. Ficou lá um tempão. Compondo-gravando-compondo-gravando. Tudo para ser melhor que os Beatles. E foram, por um álbum. Depois, inspirados pelo Pet Sounds, os Beatles fizeram o Sargent Pepper’s: o maior álbum da história, segundo a lista dos 500 maiores discos da Rolling Stone, publicada em 2003.

4 Comments

  1. Ma Says:

    Não conheço (eu acho).
    Fiquei curiosa! ;)

  2. Lello Lopes Says:

    E o A Tempestade é um disco subvalorizado. Acho sensacional. Tem as letras mais poéticas da Legião.
    Bjs

  3. Mario Amaya Says:

    A Legião falava disso, de músicas com várias camadas de significado para explorar.
    Conhece Smile, o disco dos Beach Boys que demorou 34 anos para ficar pronto? Seria o glorioso sucessor de Pet Sounds e do single campeão Good Vibrations. Mas a pressão contra e a favor do revolucionário trabalho foi tão grande que Brian Wilson sucumbiu, engavetou o projeto, amargurado, e nunca mais foi o mesmo.
    Smile é dividido em três suítes de músicas interconectadas. A parte do meio, para mim, é um dos maiores triunfos musicais do século que passou, pau a pau com trabalhos consagrados de Stravinsky, Villa-Lobos, Debussy, Gershwin. Rompeu todas as fronteiras dos rótulos musicais.
    Além de tudo, liricamente ele é impecável. Começa repassando a formação da nação norte-americana, com todas suas conquistas e contradições. Então, penetra no campo íntimo e expõe toda a angústia existencial e senso de inocência perdida e irrecuperável, que emergiu com a geração Beat e continua a nos afligir hoje, em tempos de hype e sexting.
    O novo álbum do Brian Wilson mostra que, se ele já não é tão ambicioso como foi na juventude, permanece com o seu talento intacto, após longos anos de alienação mental e esquecimento. Terminar Smile tirou esse peso de suas costas, mas ele continua a falar candidamente do tema em suas canções no novo disco.
    Pet Sounds, se não tivesse letras cantadas, já poderia ser considerado uma obra-prima, pelas suas harmonias e arranjos. É só conferir a caixa comemorativa que tem as sessões de gravação em estúdio e as faixas instrumentais de todas as músicas.

  4. carla Says:

    @Ma: tem que ouvir. O Pet Sounds é ótimo.

    @Lello: Eu prefiro o V, sempre. O Tempestade é muito triste e me faz chorar. Quem sabe um dia eu consiga ouvir e concorde contigo! ;)

    @Mario: Conheço não, vou procurar aqui. Obrigada pela dica!

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