Peraí… 2010 tá acabando? [Meme das antigas]

Acho que esse é a primeira vez, em toda a minha vida, que eu não posso dizer que o ano passou rápido. Passou, é fato, mas eu fiz tanta, tanta coisa que eu não posso me queixar de que o ano já está acabando. Se não fosse drama demais, eu poderia dizer que eu acabei antes dele.

2010 começou super cedo para mim. Na primeira semana de janeiro eu já estava trabalhando loucamente para repor as horas de um curso que eu ia fazer nas últimas semanas. Ao invés das costumeiras 20 horas, eu estava cumprindo quase 50 horas por semana no estágio. O estágio, na Secretaria de Ação Social, foi curto (fiquei apenas 5 meses), mas foi fundamental para a minha formação. Ali eu aprendi, na prática, a importância do Bolsa Família. Vi muita pobreza (e muito cachorro abandonado). Entendi que vaga em creche não aparece da noite para o dia, mesmo que exista uma decisão judicial garantindo isso. Eu chegava em casa esgotada todos os dias, não consegui conciliar com os estágios que vieram depois, mas foi fundamental.

Aí veio o Curso de Verão em Psicobiologia. Para quem estava acostumada a passar os dias zanzando pela periferia, passar duas semanas internada em um ambiente de pesquisa foi uma mudança e tanto. Novos contatos, novas idéias. Aprendi muito: neurociência, psicofarmacologia, drogas, sono, modelos experimentais (ratos, camundongos, pesquisa clínica), exercício. O Curso de Verão foi fundamental para que hoje eu tivesse um lugar garantido no próximo ano.

Foi também o último ano da faculdade. Matérias chatas, estágios exigentes. Na clínica, passamos de duas horas para uma tarde toda. E comecei no hospital: primeiro na UTI, depois no RH. Tolerância a frustração, paciência e, principalmente, muita estudo. O último ano da faculdade pode ser o mais chato ou o mais bacana, dependendo da forma com que a gente encara. Agora, no fim de tudo, eu acho que foi bacana. Muito bacana. (E como se cresce estagiando, não?)

No meio dessa correria toda, um casamento para organizar. Foram algumas horas no ônibus, outras na internet, vendo buffets, espaços, vestido, doces, bebidas. Detalhes sem fim. Houve momentos em que eu pensei em largar a idéia de celebrar com os queridos e fugir com o Lello para Paris, mas hoje, com tudo resolvido e convites entregues, eu tenho certeza de que toda a correria valeu a pena.

Os planos para 2011 também incluíam a carreira. Em julho, prestei a seleção para o mestrado e fui aprovada. Considerando que seis meses antes eu sequer conhecia o departamento, foi a melhor surpresa de 2010. A ficha demorou uns dias a cair e só caiu quando chegaram os primeiros resumos. Mais coisas para fazer? Vamos lá então.

2010 trouxe outras coisas bacanas: depois de um susto, voltei a nadar. Comecei a praticar pilates. Mudei a minha alimentação consideravelmente. Passei a dar mais valor para coisas prosaicas como almoçar com meus pais, dar banho nos cachorros ou dormir uma noite inteira. Em vários aspectos, 2010 foi o ano daquela transição que começou a se anunciar em 2007. 2010 foi o primeiro ano do resto da minha vida. E que venha 2011!

Violência doméstica: até quando vai ser natural?

Hoje, 25 de novembro, é Dia do Combate à Violência contra a Mulher. A gente tem que combater todos os dias, mas o dia 25 de novembro marca a luta e nos traz visibilidade. Eu escrevi esse texto há muito tempo, mas ele continua atual. Mas, antes de continuar a leitura, veja o filme:

——–

Cena 1 (vizinhas conversando):

- Aquela ali apanha do marido.
- Mas também bate. Você viu que eles estavam os dois roxos ontem?
- Pois é a vida: tem quem goste assim
.

Cena 2 (pai falando com o professor):

- Quando eu chegar em casa, a varinha vai comer.
- Mas adianta?
- Sempre adiantou. Semana passada ele apanhou, semana retrasada também. Só apanhando ele aprende.

Cena 3 (aluno em sala de aula):

- Mas sabe o que é, professora? Tem mulher que gosta de apanhar. A minha vizinha, por exemplo, se não apanha, não deixa o marido dormir. Eu que não vou me meter.

Das três cenas aí de cima, pelo menos uma eu presenciei nos últimos seis meses. As outras duas é bem possível que você tenha presenciado. E me assusta perceber o quanto a gente considera “normal” a violência que acontece dentro de casa.

Violência doméstica não é só dar tiro na mulher porque ela demorou no mercado. Aliás, violência não precisa ser física, pode ser psicológica. O filme espanhol Te doy mis ojos (trailler), de 2003, é uma ilustração bastante fiel do quanto a violência doméstica extrapola o limite da agressão física: uma pessoa cotidianamente agredida não consegue estabelecer vínculos afetivos. É uma pessoa que está condenada a não confiar: não confiar nos pais, não confiar no parceiro, não confiar no chefe, não confiar nos amigos. Se eu aprendo que a cada falha eu vou apanhar, que a cada mudança climática (ou derrota do time) eu vou tomar uns tapas, como eu vou estabelecer uma relação afetiva e não violenta com qualquer pessoa?

Para compreender o fenômeno é importante mudar o foco. Sair do agredido e partir para o agressor. O que leva uma pessoa a se tornar um agressor? Agressores são formados com modelos de agressão. Crianças que crescem presenciando os pais se agredindo provavelmente acharão “normal” que um exerça esse poder violento sobre o outro: porque é mais forte, ganha mais ou é o responsável pela casa. Enquanto filhas de mulheres agredidas tenderão a naturalizar o “apanhar”, filhos de pais agressores tenderão para o “bater”. A aprendizagem se dá pelo modelo.

Já passou da hora de repensarmos (e tentarmos eliminar) as reações violentas que ocorrem dentro das nossas casas. Repensar nossas respostas às adversidades, nossa visão de mundo: será natural que “quem pode mais, bate e quem pode menos, apanha”? São esses os lugares que queremos ocupar em nossa relação com o mundo? Quais as conseqüências disso para a sociedade?

Estabelecer um novo repertório de comportamentos, não violentos e baseados no afeto, na racionalidade e no respeito ao outro é trabalho para gerações. Mas isso não é justificativa para não darmos o primeiro passo.

Quer saber mais?

Dos pequenos rituais

Tea Cup by C. Lemon (CC no Flickr)

Tea Cup by C. Lemon (CC no Flickr)

Tira a caneca de inox do armário. Coloca uma xícara de água do filtro. Acende o fogão.

Abre a caixa de chás. Escolhe um, de acordo com o horário. De manhã, algo quente, forte, cheio de especiarias para despertar. Chai. Após o almoço, algo leve, Genmai. A noite, uma infusão leve, calmante. Erva-doce, erva-cidreira.

A essa altura, a água já ensaia uma fervura. Desliga o fogo. Abre o sachê, coloca na xícara. Junta a água, conta três minutos. Tira o sachê.

Espera descansar, chegar à temperatura do corpo. Nem quente, nem frio. Bebe, apreciando cada gole. Saboreando cada pedacinho escondido de especiaria. Desliga-se. O que seria da rotina, sem esses pequenos rituais?

(Escrito em junho de 2009, ficou guardado nos rascunhos desse blog durante o longo período de coma. Eu voltei, mas não garanto que vou ficar.)

Eu (coração) Paraty

Crédito: Luiz Castro

Crédito: L.F. Castro (Clique na foto para visitar no Flickr)

A primeira vez em que estive em Paraty eu tinha dezesseis anos. Foi uma passada rápida: minha tia morava em Ubatuba e, numa viagem de verão, resolvemos passar o dia na cidade histórica. Foi o suficiente para deixar, em mim, a vontade de voltar para lá e ficar na cidade tempo suficiente para conhecer melhor aquelas ruas de pedra.

Vale dizer que Paraty é um daqueles destinos ótimos para uma viagem de clima incerto. Chova ou faça sol, há o que fazer na cidade. Sorte nossa, que pegamos sol apenas no primeiro dia. Sorte mesmo: um dia de sol passeando pela baía foi suficiente para garantir uma bela sapecada nas costas dos urbanóides branquelos.

No primeiro dia de chuva, aproveitamos o dia na cidade. Almoçamos no Paraty 33, tomamos sorvete de banana com nozes e chocolate (coisa-de-outro-mundo), demos voltinhas pela cidade, visitamos o Forte e ficamos de mãos dadas na praça. A noite, um mojito ótimo no não menos ótimo Che Bar e mais voltinhas para compras perdulárias (e bananas flambadas).

Ah, as bananas. Paraty é cidade de praia e a banana, junto com o pescado e o chuchu (juro!) são a base da sua culinária. Basta pedir o “prato caiçara” que você vai ver: arroz, feijão, pescada e chuchu. De sobremesa, banana flambada com sorvete. As férias que eu pedi a Deus!

E tem as cachoeiras. Na Estrada Real, no trecho que liga Paraty a Cunha, é possível visitar várias cachoeiras. Algumas em fazendas, com restaurantes próximos. Outras, próximas de alambiques, onde adultos degustam cachaça e crianças degustam melado. Eu, que me incluo nos dois grupos, comprei cachaça e melado!

Próxima a Paraty, fica Trindade. É uma vila com cara de comunidade alternativa. Praias de mar bravo, trilhas e uma piscina natural. Para chegar à piscina, você pode fazer uma trilha ou ir de barco. Escolhemos o barco, mas nem por isso foi um passeio com menos adrenalina! O ônibus entre Paraty e Trindade sai a cada hora (e é uma aventura).

Momento propaganda: escolhemos o Solar d’Alcina para ser o nosso teto em Paraty. A pousada é nova, tem poucos quartos, cuidadosamente decorados. Ar-condicionado, um bom chuveiro e uma varanda gostosa para animar o dia. Além disso, tem duas entradas: uma em frente ao Forte e a outra a 5 minutos de caminhada do centro histórico, perto da praia do pontal. Essa proximidade foi fundamental na nossa escolha, pois estávamos a pé. Não nos arrependemos e recomendamos fortemente!

Sim, estávamos a pé. Fomos de ônibus, saindo de São Paulo pela manhã e chegando em Paraty no começo da tarde. O ônibus é bastante confortável. Não sentimos falta de nada: para o passeio das cachoeiras pegamos uma toyota (um carro não faria aquelas trilhas). O passeio pelas ilhas foi feito de barco. O passeio para trindade, de ônibus de linha. No fim das contas, uma viagem tranquila, sem carro, sem preocupação com estacionamento, sem “seu creysson” incomodando. Poder voltar para “casa” a noite, a pé, ouvindo o barulho do mar é uma delícia.

Arte, artesanato, cultura, gastronomia. Cachoeira, trilha, serra, praia, mergulho. Igrejas e museus. Paraty, apesar de pequenina, tem atração para vários dias. E, nesses dias frios, dá uma saudade daquele calorzinho…

* Sim, eu roubei descaradamente o título do post da Lu Mastrorosa! Me perdoa, Lu?

Melhor que os Beatles

Foi uma entrevista da Legião Urbana ao Renato Alexandre, no Zap, por ocasião do lançamento da Tempestade. Lá pelas tantas, o entrevistador pergunta ao Renato se ele tinha vontade de fazer o seu Pet Sounds. Ele respondeu assim:

Todo próximo disco da Legião vai ser o nosso Pet Sounds, mas acaba não sendo. Acho que cada trabalho de todo o artista é para ser o Pet Sounds, mas não é, entende?

Era 26 de setembro de 1996. Eu tinha 17 anos, estudava no colégio de manhã e no cursinho pré-vestibular de noite. Faltavam dois meses pra primeira fase da Fuvest e era só nisso que eu pensava. Mas tinha o disco novo da Legião saindo e, bem, era o disco novo da Legião! Depois de um bom tempo, o disco novo da minha banda favorita ia sair e tudo, tudo, tudo que se referisse a isso era alvo da minha atenção. E aí o Renato me fala desse tal Pet Sounds, de que eu nunca tinha ouvido falar. Pronto, eu pre-ci-sa-va ouvir o Pet Sounds. Virou prioridade máxima ter o CD nas mãos.

E agora eu tenho que ser honesta, honestíssima. Às primeiras audições, achei P-O-D-R-E. Um disquinho de criança, com uns cabritinhos na capa, umas musiquinhas românticas qusase melosas. Como assim, que repórter retardado achava que a Legião tinha que fazer “o seu” Pet Sounds? Tinha tomado groselha demais no almoço? E, pior, por que diabos o Renato disse que todo artista entrava em estúdio para fazer “o seu” Pet Sounds?

Em 1997, depois da morte do Renato, já na faculdade, voltei a ouvir Pet Sounds. Porque eu andava com uma turma roqueirinha e, nhé, precisava fazer bonito. E lá fui eu dar uma segunda chance pro disco dos cabritinhos na capa. Já mais inserida no meio do roquenrou (rá rá rá), achei o disco bom. Rico, interessante, mas ainda não me dizia muita coisa.

Foi por volta de 2004, 2005 que eu voltei a ouvir o Pet Sounds. E entender a importância do disco, que foi apontado como a maior importância para o Sargent Pepper’s (convenhamos, não é pouca coisa). E aí caiu-me a ficha. Pronto.

Apaixonei.

E assim, God Only Knows se tornou, para mim, a declaração de amor mais linda que já foi feita e Wouldn’t it be nice, mantra nas horas de encheção de paciência. O disco, inteiro, música para aqueles momentos em que eu acho que nada mais pode ser feito, porque mostra que sempre dá. Além disso, o Pet Sounds é um dos poucos discos não-do-Pink-Floyd que eu costumo de ouvir inteiro, numa sequência.

* Explicando o título: meu cunhado conta uma história muito bonitinha. Depois de ouvir o Álbum Branco [A Daniela Picoral, fotógrafa super bacana, me mandou um e-mail contando: não foi o Álbum Branco, mas sim o Rubber Soul, de 1965] dos Beatles, o Brian Wilson se enfurnou no estúdio porque ele tinha que criar uma coisa tão boa quanto. Ficou lá um tempão. Compondo-gravando-compondo-gravando. Tudo para ser melhor que os Beatles. E foram, por um álbum. Depois, inspirados pelo Pet Sounds, os Beatles fizeram o Sargent Pepper’s: o maior álbum da história, segundo a lista dos 500 maiores discos da Rolling Stone, publicada em 2003.

A Paula Pimenta é ótima (e o meu blog é Roxie)


Paula Pimenta é amiga dos tempos de Enloucrescendo, uma lista de discussão antiga pra caramba que me rendeu vários amigos. E hoje descobri que ela está participando do concurso de composição de letras do site do Leoni. Quem conhece a Paula sabe o tanto que ela gosta de música e de como esse é o caminho que ela escolheu para si e o quanto ela merece ganhar. Mas não é por isso que eu faço campanha: é porque eu gostei muito da letra dela. Se você concorda comigo e quer votar, um passo a passo:

  1. Entre no site: www.leoni.com.br
  2. Lá em cima, do lado direito, vai estar escrito REGISTRE-SE
  3. Registre-se, é só colocar seu nome, email, apelido e inventar uma senha
  4. Vão mandar pro email cadastrado um link pra validar o registro.
  5. Vai no email, clica no tal link, vai aparecer uma tela falando que agora você já é registrado no site (esse registro é necessário pra ninguém votar com email que não existe).
  6. Clica aqui: http://leoni.com.br/videos_composicao_final.php
  7. Vai aparecer pra fazer login, é só colocar seu email e a senha que vc criou.
  8. Vão aparecer os vídeos, tem que marcar a bolinha do lado do da Paula (é o quinto).
  9. Lá embaixo clica em confirmar

Pronto! Nem doeu!

Meu blog é Roxie!

Meu blog é Roxie!

E eu ganhei um selinho da Lu Mastrorosa querida e tenho que colocar aqui, ainda que com muito atraso! As regrinhas são as seguintes:

1- Exibir a imagem do selo “Seu blog é Roxie!” e escrever essas regras abaixo dele. Ta aí em cima, né?

2- Colocar quem te deu o selo nos seus blogs indicados. A Lu é minha indicação constante!

3- Escrever 5 coisas que são Roxie (1- sobre musica, 2- sobre televisão e cinema, 3- três países que gostaria de conhecer, 4- três cores favoritas e 5- três hobbies).

Música: Bach. Sempre ele. O maior de todos.

- Televisão e cinema: a Nigella, o Jamie. E o cozinheiro do “Sem Reservas” fazendo macarrão pra Little Miss Sunshine!

Três países que gostaria de conhecer: Canadá, França e Ilhas Fiji.

Três cores favoritas: lilás, vermelho e azul royal.

Três hobbies: cozinhar, ler e viajar. (igual a Lu, que coisa)

4- Indicar 10 blogs que você ache Roxie.

Ai, ficou difícil. Todo mundo que tá no meu blogroll é Roxie, vale assim?

5- Avisar a pessoa que você indicou, deixando um comentário para ela.

Romildo, Romualdo e os palavrões

(Os nomes foram, obviamente, trocados para evitar a identificação dos personagens.)

Romildo e Romualdo são dois meninos de 6 anos. Estão no primeiro ano do ensino fundamental. São amigos desde (ainda mais) crianças, vivem no mesmo prédio e estudam juntos. Suas mães tem uma parceria: uma leva para a escola, a outra traz de volta para casa. Funciona bem para elas, melhor ainda para os meninos.

Um dia, a mãe de Romildo chega para buscá-los e, ao invés de estarem brincando no parque da escola, Romildo e Romualdo estão sentados lado a lado, amuados. A professora explica: eles brigaram feio no parque. Sem agressões físicas, apenas uma discussão sem sentido. Estão sentados há quinze minutos, para pensar no que fizeram.

Quietos, Romildo e Romualdo entram no carro da mãe e ajustam os cintos de segurança. Antes de dar a partida, a mãe pergunta o motivo da briga. Eles respondem em uníssono: “Mas a gente não brigou, apenas estava brincando.” A mãe diz que vai conversar melhor em casa e segue dirigindo. No carro, os meninos continuam iguais: brincam, falam do desenho favorito e das figurinhas. O quê teria acontecido?

A mãe de Romualdo o espera na porta de casa, como sempre. A mãe de Romildo diz o que houve e pede que ela tente entender, diz que vai fazer o mesmo com Romildo. “Coisa de criança, vai saber o que aconteceu, já estão amigos de novo.”

Depois do banho, Romualdo e a mãe conversam:

- Romualdo, me diga o que aconteceu na escola.

- Nada, mãe. A gente “tava” brincando e a profe mandou a gente parar e ficar pensando.

- Brincando de que, Romualdo?

- Campeonato de palavrão.

(A mãe de Romualdo fica em silêncio por uns instantes. Campeonato de palavrão? Essa é nova!)

- Como funciona isso, filho?

- Ah, é fácil. Eu falo um palavrão, você fala outro. Eu falo outro. Você fala outro. Perde quem não souber mais nenhum.

- Ah, entendi…

A mãe de Romualdo então explica para o filho. Palavrões não são palavras que podem ser ditas em qualquer lugar. Algumas pessoas ficam sentidas ao ouvi-los. Não devem, de forma alguma, ser dirigidos a outra pessoa (ou ao brinquedo, ou ao cachorro). Não podem ser ditos na escola porque não sabemos como é a família de nossos coleguinhas e algumas famílias acham isso muito, muito ruim. E, depois de uma conversa com a mãe de Romildo, faz um combinado com as crianças: a partir do dia seguinte, quando fossem para a escola, poderiam falar os palavrões que quisessem no caminho. Chegando na porta da escola, devem parar imediatamente.

Os meninos aceitaram a condição e nunca mais falaram palavrão na escola. O caminho para a escola ganhou uma trilha sonora impagável. E a escola perdeu a chance de ouvir o que as crianças tem a dizer sobre o seu próprio comportamento.

Sobre feminismo, machismo e outros ismos…

Há alguns dias eu estava estacionando o meu carro em frente a uma loja de produtos agropecuários. Eu gosto dessa loja porque tem viveiros enormes com calopsitas na frente, o que geralmente me rende algumas risadas. Nesse dia não foi diferente: um cachorro estava passando pela rua e, curioso, resolveu colocar o focinho no viveiro. Uma das calopsitas não teve dúvida: deu-lhe uma bicada no focinho e o pobre vira-lata saiu correndo pela rua.

Mal sabia eu que, como a calopsita e o cachorrinho, também estava sendo observada. Distraída pela cena, acabei encostando a roda do carro no meio-fio. Não que isso me incomode: carro é para ser usado, não para me usar. Era o que eu pensava…

Desci do carro e um senhor (que estava na porta da tal loja e eu nem tinha visto) olha para mim, muito sério, e diz “ih, seu marido vai ficar bravo com isso”. Me subiu o sangue: como assim “meu marido”? Para começo de conversa, a criatura nem me conhece para saber que nem casada sou. O carro é meu. A roda é minha. O que leva aquela criatura a pensar que, se eu estrago o MEU carro, o problema não é meu, é do meu MARIDO?

Eu tive que perguntar “Mas o carro é meu, porque outra pessoa ficaria brava com o que eu faço com ele?”. Ele, aparentemente constrangido, disse “ah, parabéns por ter o seu carro”. Claro, né? Porque trabalhar e ter o próprio carro é MUITA coisa para uma mulher, essas pobres coitadas que não tem condições de trabalhar-produzir-contribuir com a sociedade. Quando um ser nascido para ser boneca, troféu, enfeite e deleite masculino consegue ser algo além disso, merece congratulações, certo? Errado.

Há quem pense que ser feminista é ser “contrária” aos homens. Que ser feminista é só usar tênis-botina-camiseta-boné. Que ser feminina é abrir mão da maquiagem, da depilação, do esmalte. Nada mais distante da realidade. Ser feminista é usar maquiagem, botina, esmalte, jeans, camiseta, vestido, saia, salto, tênis ou fazer depilação SE e QUANDO quiser. Fazer isso para o próprio prazer, não para o outro. Ser feminista é ficar pasma quando alguém diz que, se a coelhinha da Playboy é assediada, bem-feito-pra-ela-quem-mandou-ser-biscate. E chiar. E, quando alegam que a máquina de lavar é a maior conquista da mulher moderna, lembrar da carteira de trabalho e do título de eleitor, como bem fez a  Marjorie. É não aceitar que mulheres e homens ainda não estão no mesmo patamar no mercado de trabalho. É não aceitar quando uma reclamação feminina, ainda que genuína, seja “fruto de TPM”. É achar um absurdo os comentários sobre a roupa da senadora xis ou a plástica da ministra ipslon, no lugar dos comentários sobre o que elas realmente fazem. É enfurecer-se quando alguém te dá parabéns, porque você é mulher e escreve bem ou porque você é mulher e inteligente ou porque você, veja que coisa, é uma mulher que escreve sobre música!

É assim que eu sou feminista. Quando eu reconheço em mim (e em todas as outras mulheres do mundo) direitos e deveres. As responsabilidades pelas próprias escolhas (tem coisa mais irritante que mulher reclamando de marido a três por quatro? tem coisa mais irritante que gente que só reclama?). A capacidade e a possibilidade de escolher ser o que bem quiser: professora, coelhinha, médica, dona de casa, astronauta, cantora, mãe em tempo integral ou engenheira. E, na medida em que a plenitude é possível, acreditar que uma mulher, para ser plena, se basta. Afinal, já passou muito da época do complexo de castração, minha gente.

Ah, os trinta anos

Semana passada foi tão corrida que mal me deu tempo de passar por aqui. Queria ter escrito tanta coisa. Queria ter falado sobre a Páscoa, queria ter falado sobre a Sexta-feira Santa (com a óbvia polêmica do churrasco, que virou uma óbvia polêmica sobre crenças e não crenças), queria ter falado do meu aniversário. Mas tive visitas mais que especiais e, como diz a Flávia, um fim de semana mal twittado é sinal de um fim de semana bem vivido.

Ah, o meu aniversário. Trinta anos. Alguns deles bem vividos, outros nem tanto. No saldo, uma vida que me trouxe até um ponto em que as coisas estão bem, me deixam felizes. Completa? De forma alguma. Que graça teria completar a existência aos trinta anos, quando se pode viver até os noventa, no mínimo? Mas hoje eu tenho idéia das faltas e aprendi a conviver com elas. Viver bem é conviver com as faltas.

E é no mínimo curioso que, no dia em que eu faço trinta anos, uma nova oportunidade aparece lá longe, no horizonte. Ainda longe do alcance das mãos, mas de certa forma dizendo “eu estou aqui, vem me pegar”. E, de repente (que não é tão repentino assim), uma pessoa que se angustiava por só ter um plano A passa a ter um plano B, um plano C. Novas oportunidades que exigem novas aprendizagens e novas ações. De repente toda uma reflexão sobre o passado, toda vontade de resgate perde o sentido. O que foi acabou, o que vem é o que importa.

Ah, Saturno, se eu soubesse a transformação que tu ias causar na minha vida, não tinha ficado com tanto medo de ti lá atrás.

Hmmm… massinha!

Uma das melhores coisas do iTunes são os podcasts. Eu sei, não é preciso ter o iTunes para acompanhar podcasts, mas foi na iTunes Store que eu achei os meus podcasts favoritos. Um deles é o Ministry of Food, um videocast do Jamie Oliver. No Ministry of Food, o Jamie dá receitas simples, rápidas e fáceis. A idéia é ensinar as pessoas a se alimentarem melhor.

Uma das primeiras receitas que eu vi foi a de macarrão conchinha com bacon e ervilhas. Hoje, depois de passar o dia pensando em finger food para o meu aniversário, resolvi experimentar a receita do Jamie. Não tinha macarrão conchinha, mas tinha uma massinha de bichinhos própria para sopa. Faltou também hortelã e eu substituí o creme fraiche por creme de leite fresco, que aqui chamamos de nata. O toque final das raspas e do suco de limão faz um contraponto ao bacon e ao creme de leite, fazendo com que o prato fique fresco.

O resultado? Maravilhoso. Uma massa leve, gostosa, nutritiva. Difícil foi manter a disciplina e não repetir pela terceira vez. ;)

Como faz?

Ingredientes:

  • 1 xícara de massa para sopa (eu usei de bichinho, mas você pode usar conchinha, ave-maria ou outra massinha curta e pequena);
  • 2 fatias de bacon, cortado bem fininho (eu uso o que já vem fatiado, corto as fatias em pedacinhos);
  • 1/2 xícara de ervilha congelada (quanto mais fresca, melhor);
  • 1 colher de sopa de creme de leite fresco;
  • 1 limão;
  • queijo parmesão ralado (é melhor comprar uma peça e ir ralando conforme você usa).

Preparo:

  1. Ferva água suficiente para cozinhar a massa. Depois que levantar fervura, salgue e espere levantar fervura de novo e cozinhe a massa.
  2. Em uma frigideira grande e funda (eu usei uma wok), esquente um fio de azeite. Depois de quente, adicione as fatias de bacon e deixe fritar até começar a sair o cheirinho de defumado do bacon.
  3. Junte então as ervilhas congeladas e mexa até que elas descongelem e cozinhem.
  4. A essa altura, a massa já deve estar pronta. Escorra a massa, guardando um pouco da água do cozimento.
  5. Junte a massa às ervilhas e ao bacon. Adicione o creme de leite, as raspas e o parmesão ralado.
  6. Desligue o fogo.
  7. Junte o suco de limão e as raspas. Misture bem, a hora que o aroma do limão subir, está pronto.
  8. Se a massa ficar seca, junte um pouco da água do cozimento.

(Você pode ver o vídeo no site do Ministry of Food, infelizmente o youtube diz que o vídeo não está disponível para o Brasil. Snif.)